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Capitu:
20.03.2004
A
Voz da Geração 90
Foi assim: encontrei
Marcelino Freire e Nelson de Oliveira no Fran's Café da Pompéia,
onde, segundo eles, a revista PS:SP foi de fato gerada. Era final
de tarde, tomamos café e batemos papo (Nelson, muito gentilmente,
trouxe-me um exemplar da revista cearense Arraiá PajéUrbe).
Conversamos sobre a PS e seus percalços, sobre os escritores
envolvidos e o modo como foram chegando, a chamada Geração
90 e de como nasceu esse conceito y otras cositas más. Gosto
do trabalho do Nelson. Gosto do trabalho do Marcelino. Procurei
deixar, na entrevista, que a voz deles corresse solta. A conversa
acabou sendo um grande bate-bola entre eles. Por que não
dizer (lugar comum?) que os caras de fato jogam nas onze? Eles so
(como fala Marcelino) legais pra caralho. É isso aí.
Adrienne Myrtes
em São
Paulo, especial para o Capitu

"Depois
a gente percebeu que, numa mesma mesa de bar ou de café,
estavam reunidos o Nelson, o Marçal, o Ruffato, o Galperin,
o Bressane. Não todos juntos. Era muito difícil reunir
todos numa mesa só, por isso a gente pensava: 'vamos documentar
isso aí.' "- Marcelino Freire
Adrienne Myrtes:
Vamos começar com uma explicação: o que é
a revista PS:SP?
Marcelino Freire:
A revista PS é aberta com um diálogo meu e do Nelson,
explicando o que ela é. Aqui a gente também pode fazer
um diálogo sobre o que é a PS. A revista começou
exatamente aqui, neste café.
Nelson de Oliveira:
A intenção foi fazer algo que podia ser uma antologia,
uma revista, um documentário, o que fosse, pra registrar
um momento que, pra nós, foi muito importante: quando o Marcelino
e o Evandro Affonso Ferreira organizaram um grupo de reuniões
semanais no Fran's Café da Fradique Coutinho. E esse grupo
deu tão certo que durou quase dois anos. Todo sábado
tinha uma reunião com um convidado especial, que podia ser
um escritor, um crítico, um editor, um poeta, um prosador.
Esse foi um período muito legal. Foi quando a gente se conheceu.
Depois de dois anos, o grupo se separou por diversas razões:
o Fran's Café, o ponto de encontro que ficava na Editora
Hedra, fechou.
Freire:
Foi fechando tudo, a livraria também fechou. Mas a revista
partiu daquelas reuniões. Havia já uma intenção,
naquela época, de fazer uma revista. Mas o que é que
acontece? As pessoas não fazem. A gente vai lá e faz.
Oliveira:
Seria, de fato, uma revista comemorativa dos encontros. Todas as
pessoas que participaram teriam uma página. Todos falavam
em fazer, só que ninguém se mexia.
Freire:
E a gente entendia que aquele era um momento especial, o encontro
daqueles escritores. Foi lá que eu conheci o Nelson, o Mirisola,
o Ruffato, o Marçal. Já conhecia o trabalho deles,
mas a gente nunca tinha se cruzado. E isso aconteceu numa época
em que cada um estava com um livro ali, sendo lançado ou
em processo de lançamento.
Oliveira:
O Angu de sangue, do Marcelino, estava sendo gerado; o Grogotó!,
do Evandro, a mesma coisa.
Freire:
Conheci o crítico João Alexandre Barbosa numa dessas
reuniões e foi ele quem me apadrinhou, me pôs em contato
com a Ateliê Editorial. Foi realmente um período muito
fértil. Só que demorou pouco, ou talvez tenha durado
o tempo que foi possível. A gente se separou, mas as reuniões
continuaram fora da Hedra, nos bares da Vila. E a vontade de fazer
a revista também continuava.
Oliveira:
O que é importantíssimo salientar - e eu acho que
isso tem que estar com todas as letras - tem a ver com a queixa
de quem não faz parte do grupo, ou por não morar em
São Paulo ou por não se dar bem com as outras pessoas.
A queixa de que são sempre os mesmos participantes. Não
é nepotismo, não é proteger sempre os mesmos.
O que acontece é que a nossa amizade surgiu dos livros. Primeiro
eu conheci um livro do Marçal Aquino, aí, conversando
com o João Carrascosa, descobri que ele conhecia o Marçal,
eu então pedi o telefone pra conversar com ele. Primeiro
eu li o Mirisola, depois eu liguei não sei pra qual revista
e pedi o endereço dele pra mandar um livro meu. A amizade
veio depois dos livros. A gente só estabeleceu vínculos
sólidos com os autores que já admirava antes.
Freire:
É verdade. Primeiro gostei dos livros pra depois gostar das
pessoas. A gente percebeu que, numa mesma mesa de bar ou de café,
uma hora estavam reunidos o Nelson, o Marçal, o Ruffato,
o Galperin. Noutra hora a Ivana, o Bruno. Não todos juntos.
Era muito difícil reunir todos numa mesa só, por isso
a gente pensava: "Vamos documentar isso aí". Me
juntei ao Nelson porque ele é uma pessoa que também
faz. É uma pessoa que tem projetos.
Oliveira:
Gente que faz...
Freire:
Eu brinco sempre com aquele comercial: não sei quem, agricultor
sei lá de onde, é gente que faz. Eu digo assim: Marcelino
Freire, nascido no sertão de Pernambuco, vive em São
Paulo desde de 1991. Marcelino é homem que faz... Merda!
"A
revista, de repente, já nasce póstuma. A revista de
um grupo que já não se reúne com tanta freqüência."
- Marcelino Freire
Adrienne:
Então a escolha dos escritores para a PS:SP aconteceu como
uma seleção natural, como o resultado desses encontros?
Oliveira:
Fomos peneirando, peneirando Uma ressalva que precisa ser feita
é a seguinte: nós admiramos muito os poetas. Há
muitos poetas nesse grupo, mas por uma questão de viabilização,
porque ia ficar muito caro, tivemos que restringir um pouco.
Freire:
Tivemos que enxugar o projeto, e como a maioria é de prosador,
ficou sendo uma revista de prosadores. Não que a gente não
admire os poetas do grupo, mas não dava pra inserir no projeto.
Não é questão de favorecer a fulano ou a sicrano.
Não temos culpa de ter, junto numa mesma mesa, parte significativa
da prosa que é feita aqui em São Paulo. Isso surgiu
naturalmente e naturalmente a gente está fazendo uma revista.
É simples assim.
Adrienne:
A intenção de vocês, ao fazerem a revista, foi
só de documentar esses encontros?
Oliveira:
Eu gosto de chamar a revista de um registro afetivo. Uma das propostas
iniciais era de uma foto coletiva. Eu gosto muito desses registros.
Eu participei de uma revista, dez anos atrás, chamada Infâmia
Literária...
Freire:
Você então já teve uma experiência antes?
Não sabia.
Oliveira:
Ah, mas nem dá pra mostrar! A revista é muito feia.
Era um grupo de diletantes, apaixonados, gente muito jovem, ninguém
tinha livro publicado. O grupo da PS é muito mais consistente,
são autores que já publicaram vários livros.
Mas eu guardo esse exemplar da revista com carinho, porque acabo
revendo o meu conto, o conto do pessoal que participou. E isso traz
uma carga afetiva muito grande, reminiscências daquele período.
Todo mundo querendo publicar e sendo rejeitado. Em contrapartida,
na época eu estava interessado na literatura portuguesa do
século XX e é tão marcante a presença
das revistas... Você tem a revista que introduziu o Modernismo
em Portugal, a revista Orpheu, com Fernando Pessoa, Sá-Carneiro.
Logo depois vem o grupo da revista Presença, todos os grupos
eram formados em torno de revistas que duravam um ou dois nmeros.
A gente também precisava ter uma revista pra documentar,
antes que o grupo se dispersasse.
Freire:
Antes que a revista fosse totalmente póstuma. A revista,
de repente, já nasce quase póstuma. A revista de um
grupo que já não se reúne com tanta freqüência.
A intenção também foi fazer um pouco a filtragem
desse momento. As pessoas quer queiram, quer não, vão
ter nessa revista um painel bem significativo do momento da literatura
feita em São Paulo. Nomes que não precisam estar provando
muita coisa para as pessoas. Gente, inclusive, que muito antes das
reuniões do Fran's já era escritor, já produzia
livros maravilhosos. As reuniões do Fran's não fizeram
de ninguém escritor. Elas apenas reuniram esse pessoal, sei
lá.
Oliveira:
Literatura feita em São Paulo, mas não exclusivamente
por paulistanos. Uma das grandes coisas da PS é que é
feita por um grupo que veio do Nordeste, do Centro-Oeste, do Sul...
De paulistano mesmo deve ter umas cinco pessoas; eu sou de Guaíra,
Joca é de Cuiabá, Marcelino de Sertânia, Bruno
de Curitiba, Ivana da Caixa-Prego...
Freire:
O que acaba sendo um painel da literatura feita hoje em São
Paulo, não há dúvida. Porque São Paulo
é o bero de vários estados, de vários países.
A gente acaba tendo esses imigrantes representados na revista.
"Eu
tenho dificuldade de lidar com escritores. Eu lido bem é
com os livros." - Nelson de Oliveira
Adrienne:
Eu queria saber por que vocês se metem em projetos como esses?
Vocês são escritores, não seria mais fácil
escreverem seus livros e procurar editá-los em vez de inventar
de fazer revista ou antologia, no caso do Nelson, a Coleção
5 Minutinhos, no caso do Marcelino? Vocês ficam arrumando
sarna pra se coçar, não é não?
Freire:
Eu sou uma pessoa muito inquieta. Sempre fiz os meus livros. Entre
uma prosa e outra sempre estou inventando alguma coisa. Adoro acompanhar
meu livro, acompanhar a capa, a produção. Gosto também
dos bastidores. Mas não é fácil. A PS, por
exemplo, reúne doze escritores... Alguns deles no teu pé,
cobrando, criticando, enchendo o saco. Mesmo assim, não me
conformo com o não-fazer. Eu adoraria ser o escritor que
fica em casa só escrevendo seus continhos, com dinheiro pra
cair na minha conta. Só que estamos num país de terceiro
mundo e se você não for atrás e fazer as suas
coisas, fodeu. A gente faz verdadeiros milagres, porque não
há dinheiro na PS, entende? Como fazer as coisas sem dinheiro?
A revista é feita de contatos aqui e ali. É uma luta
muito grande. Muitas vezes me pergunto: caralho, cacete, vale a
pena? Saio agora do processo da PS, vou entrar no da série
Lê Prosa, no da Coleção 5 Minutinhos Infantil...
Digo sempre: faça agora ou se cale pra sempre. É assim,
assado.
Oliveira:
Eu não tenho uma boa resposta para a sua pergunta. O momento
de arrependimento chega cedo. A gente aproveita o primeiro impulso
e se agarra a ele, porque sabe que dali a dez dias vai se perguntar
por que foi se meter numa embrulhada dessas. Com a PS está
sendo assim. Foi assim com a primeira antologia, com a segunda também
está sendo. Eu tenho dificuldade de lidar com escritores.
Eu lido bem com os livros. Pessoas que escrevem têm deficiências,
têm necessidades e eu não sei, às vezes, lidar
com essas necessidades. Então eu sempre me arrependo. Em
contrapartida, só a ficção não me basta.
Só escrever conto, romance é insuficiente. Eu preciso
mexer com outros meios de comunicação. Eu acho as
revistas em geral, essa forma de comunicação, uma
das coisas mais belas que já foram inventadas pelo ser humano,
porque a revista tem um formato tão descontraído que
é perfeita pra veicular mensagens descontraídas. Você
vai perceber que a PS não tem editorial, tem um bate-papo.
Ela tem fotos grandes de todos os autores e são fotos até
narcisistas, os autores fazendo pose de galã, e aí
tem um comentário ao lado que tira um sarro danado deles.
Quando isso acontece, você dessacraliza a literatura. Me agrada
isso. A Coleção 5 Minutinhos também dessacraliza.
Vai ser muito difícil encontrar um leitor de robe de chambre,
com vinho importado, música clássica, lendo a 5 Minutinhos.
Eles gostam de Camões, Cervantes. Eu gosto dessas formas
dessacralizadoras. Eu gostaria de mexer com curta-metragem. Eu não
gosto de ficar apenas restrito às letras. Mas, diferente
do Marcelino, eu sou uma pessoa que não sabe pedir. Eu não
saberia pedir ao J. R. Duran que fotografasse a gente sem receber
um tostão. Não saberia pedir à ALMAP que nos
patrocinasse. Eu trabalho dentro dos meus recursos. Eu pagaria o
que eu posso pagar, tanto que a primeira idéia era que a
PS fosse cotizada. Por isso não deu certo. Ninguém
quis pagar nada.
Freire:
A revista não sairia nunca! Tirar quinhentos reais do Mirisola,
tirar o leite da criança do Bressane. É a morte pra
eles. Nunca sairia, nunca. Envolveu dinheiro, fodeu tudo.
"As
pessoas perguntam por que é que os meus livros têm,
no final, uma relação enorme de agradecimentos. É
porque eu sempre preciso de muitas pessoas, e devo agradecer por
isso. Sempre vivo devendo a Deus e ao mundo e ao Raimundo."
- Marcelino Freire
Adrienne:
Vocês tiveram algum tipo de patrocínio então?
Freire:
Até janeiro deste ano eu trabalhava numa agência de
propaganda. Trabalhei doze anos na AlmapBBDO. O José Roberto
Bezerra, que é o produtor gráfico da agência,
sempre me ajudou bastante. O Alberto Lago, também produtor
da agência. A Litokromia sempre me ajudou. Sempre pedi coisas
pra ela. O eraOdito, em 98, já saiu com o apoio da Litokromia,
a Coleção 5 Minutinhos também, e agora a PS.
Silvana Zandomeni, diretora de arte, é outra força
sempre presente nos meus trabalhos. Nunca cobrou um centavo. As
pessoas perguntam por que é que os meus livros têm,
no final, uma relação enorme de agradecimentos. É
porque eu sempre preciso de muitas pessoas, e devo agradecer por
isso. Sempre vivo devendo a Deus e ao mundo e ao Raimundo. No Angu
de sangue, você pode ver lá todo o elenco almapiense:
José Roberto, Silvana etc. A PS tem também o apoio
da Votorantim Celulose e Papel e da Almap. Enfim, a revista está
saindo, j está aí. 1.500 exemplares com o apoio desse
pessoal todo. E tem a presença do J. R. Duran que fez a foto
dos autores sem cobrar porra nenhuma. E tem gente que ainda acha
ruim.
"O
projeto é muito legal, a revista é bastante atraente,
simpática, não é uma revista pedante."
- Nelson de Oliveira
Adrienne:
Como foi a adesão do Duran ao projeto?
Oliveira:
Ele topou na primeira hora.
Freire:
O J. R. Duran fez a minha foto do Angu de sangue. Desse primeiro
contato rolaram bons papos, a gente acabou trocando e-mails e depois
ele pediu o contato do Mirisola, fez um trabalho com o Marçal.
Ele conhece a nossa geração, ele gosta dos trabalhos.
Nada mais natural na época, quando pensamos na foto, do que
convidar o Duran. O pessoal pensa que o Duran é fotógrafo
só da Playboy. Ele tem fotos maravilhosas feitas na África.
É um cara muito generoso e sensível. E tem uma revista
da qual ele é editor. Você conhece a Freeze? É
bem legal. Já publicou uns contistas por lá.
Adrienne:
Como é a tensão perto do lançamento da revista?
Oliveira:
De certa maneira, a gente já está acostumado com isso,
os livros sempre ficam prontos dois dias antes do lançamento.
Quando não na noite do lançamento. Eu estou completamente
sossegado porque o Marcelino, até mais do que eu, está
monitorando o andamento das coisas e a gente está trabalhando
com profissionais do primeiro time, o pessoal da Litokromia é
bem bom. E tem o Plínio Martins, da Ateliê, que está
funcionando como um reforço, um reserva nossa. Ele gostou
muito da revista quando viu o boneco. Se dispôs a ajudar no
que fosse necessário pra que a revista saísse, ou
seja, o projeto é tão legal, a revista é tão
atraente, simpática Não é uma revista pedante.
Isso acabou seduzindo muita gente. Todos estão ansiosos pra
que saia. Eu acho que vai correr tudo bem e vai ser uma festa mesmo.
Freire:
Eu concordo com o Nelson, mas esta tensão não deixa
de existir, de me acompanhar. Até o dia 24 vai ser um sufoco.
É uma revista feita com muita luta, sem dinheiro, desde o
começo negociando, fazendo as pontes. As pessoas que vão
receber a revista pronta não sabem o que é isso. Reunir
os escritores, pedir os textos, revisar, tudo com muito trabalho.
Eu e o Nelson já perdemos metade dos nossos cabelos. A gente
fica apreensivo mesmo, mas acaba dando tudo certo. A vontade de
fazer acaba superando isso tudo.
Oliveira:
A revista pronta é um universo fechado e coerente, os percalços
não estão nele. Agora, organizar esse universo é
que são elas. É autor que não manda conto
São doze autores. O décimo segundo não manda
o conto, e agora? Liga pro fulano, fulano está viajando,
como é que fica? Atrasos de várias naturezas. Marcelino
agendou as fotos. Fulano pode tal dia, não pode tal dia,
Duran a semana que vem está na África, André
Sant'Anna está há três meses num hospital em
Natal, falta a foto do André Sant'Anna. A revista prontinha
e faltando a foto do André. Quando é que isso vai
pra gráfica? Esses percalços, no nosso caso, dão
um gosto especial pra revista. Quando a gente pegar o objeto pronto,
aquilo vai ter um gosto especial. O que eu acho curioso é
que as pessoas que cobram uma posição política
e ideológica são as que não participam de nenhuma
empreitada, mas cobram de quem faz alguma coisa: "Por que é
que fulano não está na revista e sicrano está?".
O fazer é sempre diminuído, fazer a revista é
o menor dos problemas. O conteúdo é o que importa.
Pelo amor de Deus! Fazer é bem mais complicado do que o conteúdo.
Os contos, que bem ou mal são 90% do que está na revista,
já estavam prontos na gaveta de todo mundo. Mas reunir estas
pessoas, fotografar estas pessoas, diagramar a revista, isso foi
um esforço descomunal que se perde. A revista pronta é
como se nascesse assim, em uma semana.
Freire:
É difícil o fazer. Quem faz está solucionando
problemas o tempo inteiro. É muita tensão. Até
o dia 24 vai ser assim. É estressante mas é prazeroso.
"O
conceito de Geração 90 foi forjado. Eu, conscientemente
forjei esse conceito. (...) Eu falsifiquei algo que agora se tornou
original. São as leis do mercado." - Nelson de Oliveira
Adrienne:
Geração 90. Sei que é complicado delimitar,
definir o conceito dessa geração, mas como surgiu
esse conceito, Nelson?
Oliveira:
O conceito de Geração 90 foi forjado. Eu conscientemente
forjei esse conceito. Porque, como você disse, é muito
difícil definir nesses termos um grupo tão heterogêneo,
de figuras tão díspares. Cada autor segue uma linha
diferente: uns são voltados para a literatura psicológica,
outros são mais formalistas, um terceiro subgrupo trabalha
com essa prosa confessional da Internet, não há identidade
entre todas essas pessoas. Mas eu, um pouco malandramente, forjei
esse conceito, porque eu percebo que o público precisa de
facilitadores, de quem sintetize determinado painel pra que ele
possa compreender o que está acontecendo. Então, no
auge das coletâneas temáticas, das antologias como
Os 100 melhores contos do século, eu forjei a Geração
90, sabendo de antemão que seria pichado logo que o livro
saísse. Vamos chamar de indução essa técnica
de forjar uma geração. Digamos que seja uma indução.
Você tem duas maneiras de atuar criticamente, você pode
ser dedutivo ou indutivo. Dedutivo é o fulano que observa
a paisagem cultural, deduz os elementos e pronto. A Geração
de 45 é isso aí. Meu método foi mais indutivo,
eu forcei a coisa a tal ponto que comecei a ver jornalistas usando
a expressão "Geração 90". Num primeiro
momento, eles estranharam: "Que geração é
essa? Luiz Ruffato não se parece com Marcelo Mirisola, nem
com Marcelino Freire". Eu concordo. Mas passados alguns meses
já se começou a falar em Geração 90
na imprensa: "Joca Reiners Terron, da Geração
90...". Ou seja, ótimo! Eu falsifiquei algo que agora
se tornou original. Acho interessante a gente brincar mais um pouco
com esse conceito, não deixar que desapareça.
Freire:
Está havendo o que eu chamo de bombardeio. Coincidentemente
eu sou convidado pra alguns projetos, o Nelson é convidado,
o Ruffato é convidado. Tem a Geração 90 que
o Nelson organizou, a Geração 90 II que ele está
fazendo agora (Os transgressores), tem a PS. Aí as pessoas
pensam que estamos há dez, quinze anos fazendo isso, que
a mídia toda nos adora e nos ama. Que conversa é essa?
Nós estamos trabalhando, cara. É uma turma que ainda
não disse metade do que tem pra dizer. Agora não sei
se o termo, Nelson, é forjar alguma coisa. A gente está
vendendo, oferecendo o nosso peixe, e não é um peixe
podre não. Não estamos, com a PS, fazendo o leitor
engolir o que não é pra engolir. A gente está
dizendo que existe um grupo que se encontrou num certo momento na
cena de São Paulo. Venha ver o grupo, venha conferir. É
incontestável o valor de cada um. É uma tentativa
nossa de organizar a casa. Anteriormente já se fazia isso.
Não estamos sendo pioneiros nessa coisa. Essa é a
diferença entre um grupo que faz e o que fica sentado, fritando
o saco.
Oliveira:
Todos os grupos importantes que se reuniram num dado momento da
história recente se reuniram em torno de uma revista. Eu
acho que a PS vem nessa hora. Mesmo que a PS seja uma reunião
um pouco forçada de elementos díspares. Mas é
uma reunião.
Freire:
Essa disparidade é a nossa característica. Cada um
tem o seu jeito. Até porque não estamos aqui organizando
um movimento literário, com regras, estatuto, essas coisas.
Oliveira:
É, não temos um manifesto. Não é um
movimento estético, é uma coisa bem descontraída.
Freire:
Nos lugares aonde eu pude ir, Porto Alegre, Belo Horizonte, Curitiba,
as pessoas já tinham notícia desse grupo de São
Paulo. No Rio de Janeiro também. Somos conhecidos como a
Máfia Paulistana. A gente até pensou em chamar a revista
de Máfia.
"PS
é uma brincadeira com o post-scriptum. É uma certa,
uma incerta literatura feita hoje em São Paulo." - Marcelino
Freire
Adrienne:
Já que você falou do nome, como surgiu o nome PS:SP?
Freire:
PS é uma brincadeira com o post-scriptum. PS é o que
a gente usa nos rodapés das nossas cartas, dos nossos e-mails.
E descobrimos que PS ao avesso é SP. É o que está
pós-escrito em São Paulo. O que veio depois do que
está escrito, no rodapé, em São Paulo. É
uma certa, uma incerta literatura feita hoje em São Paulo.
É lógico que há outros escritores que não
estão na revista. Você tem o Bernardo Carvalho, o Juliano
Pessanha, o pessoal da revista Ácaro, o Paulo Werneck. Tem
um monte de gente escrevendo. Não estamos dizendo que somos
os únicos. Estamos dizendo apenas quem somos.
Adrienne:
A revista vai ter um número único ou vai continuar?
E como é que vai ser a comercialização depois?
Freire:
A revista terá um único número, edição
única e tchau, boa noite. Quanto à comercialização,
vai ser feita pela Ateliê. Não sabemos o preço
ainda, mas a gente crê que seja uma edição que
vá acabar logo. São doze autores envolvidos e eles
têm seu familiares, periquitos e cachorros. Não é
possível que vá encalhar.
"Eu
estava contrabandeando lambreta. Conhece a história da lambreta?"
- Nelson de Oliveira
Adrienne:
Eu percebo que muita coisa está sendo feita. Muitos livros
lançados e as pessoas, de maneira geral, não têm
condições de acompanhar tudo. Por isso acabam se voltando
para os clássicos, para o que já tem valor estabelecido.
A antologia Geração 90, e agora a PS, servem nesse
sentido, pra dar voz a esse grupo específico de artistas,
não é?
Oliveira:
O que você falou é certíssimo. O Brasil tem
autores canonizados: Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles, Dalton
Trevisan. São autores que não precisam de promoção.
Os livros deles são aguardados ansiosamente pelo mercado,
pelos jornalistas, pelos livreiros. Com a Geração
90 eu trabalhei em vários níveis. Eu estava contrabandeando
a lambreta. Conhece a história da lambreta? É um conto
do Stanislaw Ponte Preta. Vou resumir: é uma velhinha que
contrabandeia objetos do Paraguai, a velhinha com a lambreta e um
sacão na garupa. Todo dia o fiscal desconfiado pára
a velhinha, revista, abre o saco e só tem areia E vai, e
vai, e vai. Aí num belo dia o cara fala: "Olha, minha
senhora, eu sei que a senhora está contrabandeando, então
eu prometo não azarar a senhora. Mas me conte, o que é
que a senhora está contrabandeando?". Aí a velhinha:
"O senhor promete amoitar?", "Prometo", "É
lambreta". Então, com a antologia Geração
90 eu fiz a mesma coisa. Eu criei um conceito pra chamar a atenção
da mídia, eu sabia que os jornalistas iam cair matando. Em
contrapartida, eu estava contrabandeando a lambreta. Lambreta que
era o Altair Martins, o Pedro Salgueiro, o Sérgio Fantini,
contistas de fora de São Paulo, conhecidos apenas regionalmente.
Aqui ninguém nunca tinha ouvido falar de um fulano chamado
Pedro Salgueiro, ou Jorge Piero - que são cearenses -, Carlos
Ribeiro, que é baiano, Cíntia Moskovich, que é
gaúcha. O que eu queria era isso, era juntar os pontos cardeais.
Freire:
Muita gente conheceu e gosta hoje do Altair Martins por causa da
antologia, não é? Ela é usada em aulas na USP,
sabia disso, Nelson?
Oliveira:
É interessante também dizer, em relação
à PS, que são doze prosadores que estão na
revista, mas há escritores que homenageamos lá, como
a Clara Averbuck, o pessoal da editora Livros do Mal, o Luiz Roberto
Guedes, o Evandro Affonso Ferreira, o Rodrigo Lacerda, o Ademir
Assunção. Todo o pessoal que, de alguma forma, sempre
está com a gente.
Freire:
Um pessoal legal. A gente é tudo legal. A gente é
legal pra caralho.
"Eu
não tenho nada a ver com o Bernardo Carvalho. E isso é
ótimo! Pra mim e para o Bernardo. Eu tenho a ver com a minha
história. Cada escritor tem a sua história, seu ritmo,
sua voz." - Marcelino Freire
Adrienne:
Aproveitando esse gancho de falar sobre autores consagrados, eu
quero saber como é que vocês lidam com o fato de serem
tratados, aqui e ali, como escritores promissores?
Oliveira:
É muito frustrante, porque eu percebo que isso vai perdurar
por toda a minha vida. Estamos vivendo uma época em que não
existe mais a consolidação de uma carreira. Não
vai mais acontecer o que aconteceu com o Rubem Fonseca, com o Sérgio
Sant'Anna, com o João Gilberto Noll, que se tornaram escritores
de fato, jovens ainda. Com vinte e cinco, trinta anos, esse pessoal
já era respeitado como escritor. Não era mais uma
simples promessa. Essa diversidade que está havendo, se por
um lado é muito boa, porque põe no mercado dezenas
de bons poetas e bons prosadores dos mais diferentes tipos, ao mesmo
tempo dilui e todo mundo passa a ser escritor, mesmo quem não
tem talento. Essa situação se materializa nos meios
de produção. Hoje é muito fácil você
publicar um livro. Vinte, trinta anos atrás era caríssimo.
Hoje todo mundo que publica se julga escritor. Isso é um
problema, e também uma vantagem porque, num determinado momento,
grandes talentos vão surgir nessa enxurrada de obras. Só
que pra você se consolidar, tem que ter um talento estupendo.
Eu acredito que, no momento, não exista esse talento. Na
poesia você não tem um novo João Cabral de Mello
Neto. Na prosa não tem um novo Guimarães Rosa, não
tem uma jovem Clarice Lispector. Eu reconheço a minha estatura.
Eu creio que Marcelino, eu, Ruffato, Bressane, todos atingimos determinado
patamar, mas falta muito para o status de grande escritor. Por enquanto
eu estou confortável, não me incomoda muito essa questão
de ser considerado diletante. Vamos ver o que vai acontecer.
Freire:
Se voc reparar na minha trajetória, eu tenho um primeiro
livro de contos, feito em 95, do qual não gosto muito, livro
imaturo pra caralho. Tenho a primeira edição do eraOdito,
em 98, o Angu de sangue e o projeto da Coleção 5 Minutinhos.
Só agora, três anos depois do Angu, vou publicar um
novo livro de contos, o BaléRalé. Em resumo: eu não
sou um escritor que tem uma obra grande. Estou no começo
do caminho. Por isso é possível que eu esteja mais
perto do promissor do que um cara como o Nelson, o Marçal,
entende? Sou quase quinze anos mais novo que eles. Mas o que me
irrita não é nem me chamarem de autor promissor, é
me chamarem de jovem talentoso. Jovem talentoso é horrível!
Mas o que me irrita mais é a coisa da influência. Vivem
dizendo que essa geração sofre influência direta
do Rubem Fonseca, que essa geração está espelhada
no seu pioneiro, Bernardo Carvalho. Cacete! Eu não tenho
nada a ver com o Bernardo Carvalho. E isso é ótimo!
Pra mim e para o Bernardo. Eu tenho a ver com a minha história.
Cada escritor tem a sua história, seu ritmo, sua voz. Influência
você recebe de tudo, de todo mundo. Tive influência
da literatura do Graciliano Ramos, depois do Guimarães Rosa,
mas não foi só de escritor que tive influência.
Tive influência de Luiz Gonzaga, tive influência da
minha mãe cantando na cozinha O que o Nelson faz na literatura
é revolucionrio. Ele leu Campos de Carvalho, leu Cortázar,
como eu li, mas não é só Campos de Carvalho
nem Cortázar, Nelson é o Nelson, entende? Eu não
posso, por exemplo, tirar o sertão do que eu escrevi. Não
posso! Estão ali o maracatu, o frevo, está tudo ali.
Então isso cansa. Muito mais do que o promissor, é
isso o que me irrita mais. Deixem o Rubem Fonseca em paz.
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