|

Os Cem
Menores Contos Brasileiros do Século
Marcelino Freire
de São Paulo, especial para o Capitu

Quanto menor melhor.
Oh!
Esse é o prazer da leitura. Principalmente em nosso país,
onde todo mundo diz: "Não tenho tempo para ler".
Sei que é de foder, mas Drummond já defendia: "Escrever
é cortar palavras". "Enxugar até a morte",
sentenciava João Cabral.
Hemingway: "Corte todo o resto e fique no essencial".
Foi inspirado em conselhos assim, creio, que tive a idéia
de organizar "Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século".
Vê essa capa que você vê aí em cima? É
ela. Uma microantologia a sair pela Ateliê Editorial.
O livro será
lançado no próximo dia 12 de abril, na Livraria do
Espaço Unibanco de Cinema aqui da capital. Anote na agenda
etc. e tal.
É claro
que o trabalho foi inspirado, idem, na antologia do Italo Moriconi,
publicada pela Objetiva. Aquela de "Os Cem Melhores".
Inclusive, Italo topou escrever um prefácio para microobra.
"Em 50 palavras".
De bom tamanho, uma vez que cada escritor mandou no máximo
duas linhazinhas. Explico: o desafio era reunir 100 escritores brasileiros,
deste século e do Brasil inteiro, cada um escrevendo um conto
inédito de até 50 letras. Letras e não palavrinhas.
O mais famoso microconto do mundo tem 37 letrinhas, a saber:
"Quando
acordou, o dinossauro ainda estava lá".
Pode contar.
O autor é Augusto Monterroso. Quando ele morreu, em 2003,
saiu escritinho no jornal:
"Morreu na sexta o guatemalteco Augusto Monterroso, em sua
casa na Cidade do México, aos 81 anos, de afecção
cardíaca. O autor de "Movimiento Perpetuo" e "La
Vaca" é considerado "o gênio do silêncio"
e um dos mais originais prosadores da língua castelhana."
E só. Pra que mais?
Repito: cada um dos autores convidados tiveram até 50 letras
para encerrar uma história, amarrar um conflito, focar um
foco narrativo. Isso sem contar título, pontuação
e espaço.
Millôr Fernandes, um dos convocados, ao pé da letra
cumpriu a regra. O seu conto é mini, mas o título
é uma odisséia.
Conheça:
Título:
Emocionante relato do encontro de Teodoro Ramirez, comandante de
um navio misto, de carga, passageiros e pesca, do Caribe, no momento
em que descobriu que a bela turista inglesa era, na verdade, uma
perigosa terrorista cubana, que tentava penetrar num porto do sul
da Flórida para dinamitar a alfândega local, e procurou
forçá-la a favores sexuais.
Microconto:
- Capitão, tem que me estuprar em 1/2 minuto; às 8,
seu navio explode.
A lista dos cem
escritores você pode acessar clicando lá embaixo. Os
outros micros, você conhecerá com o livro na mão.
Nas livrarias, só a partir do lançamento.
Vamos falar aqui, por exemplo, de outros microcontos. Desde quando
vem essa minha paixão pelo que é pequeno. Lembro de
frases de pára-choque de caminhão. Quem nunca leu?
Sempre vi narrativas ali, rodando em cima dos pneus.
Eis algumas:
[1] Mulher feia e cheque sem fundo, protesto.
[2] Sexo demais prejudica a memória.
E outra coisa que não me lembro agora.
Sem contar pequenas frases em paredes de banheiro. Sinta só
o cheiro:
[1] Se você tem tanta certeza do que faz, por que sempre
olha para o papel?
[2] E cagando estava a dama mais formosa.
Vem também
à minha memória o livro "Histórias de
Cronópios e de Famas", onde Júlio Cortázar,
em breves parágrafos, apresenta ao leitor instruções
para dar a corda ao relógio ou para subir uma escada.
Como não lembrar do Dalton Trevisan, o nosso mini e microcontista
maior, que também participa dos "Cem Menores"?
Do Trevisan, algumas linhas:
[1] - Não fale, amor. Cada palavra, um beijo a menos.
Ou:
[2] Ouça:
o teu coração batendo aqui na minha xotinha.
Há pouco,
conheci o trabalho do Max Aub, recém-lançado pela
recém-editora Amauta. O livro chamado "Crimes Exemplares".
Saiba:
[1] Matei-o porque minha mãe me pediu.
[2] Meu pai me disse que nunca me abandonaria... não
pôde.
[3] De mim ninguém mais ri. Esse, pelo menos, não.
Sei que Franz
Kafka também escreveu uns minitextos. Há uma anotação
no diário dele, feita em 1914, de exatas 52 letras:
"2 de agosto:
a Alemanha declarou guerra à Rússia.
Natação à tarde."
E tantos outros
exemplos e frases que me chegam à cabeça. E livros
que foram lançados. Há o "Grogotó!",
de Evandro Affonso Ferreira (TopBooks, 2000), há o "Mínimos,
Múltiplos, Comuns", de João Gilberto Noll (lançado
pela editora Francis no ano passado). Há as prosas curtas
do Fernando Bonassi, da Zulmira Ribeiro Tavares. Não esquecer
o Leminski, mestre nas "sacadas".
Aqui, incluiria uns caras que me mandaram uns microcontos depois
da matéria do Cassiano Elek Machado na Folha de S. Paulo
(confira matéria no linque abaixo).
Teve um que mandou assim:
"Rosa disse sim
ao anão do jardim".
Fim.
SERVIÇO:
"Os Cem
Menores Contos Brasileiros do Século"
Organização: Marcelino Freire
Microprefácio: Italo Moriconi
Projeto Gráfico: Silvana Zandomeni
Editora: Ateliê Editorial - São Paulo
Páginas: 216
Preço: A definir
Lançamento: Dia 12 de abril, segunda-feira, a partir das
19 horas, na Livraria do Espaço Unibanco de Cinema, Rua Augusta,
1.475 - Telefone 11 3141-2610
Para ler a matéria
da Folha sobre os "Cem Menores Contos Brasileiros do Século",
clique
aqui.
Para ver a lista
dos 100 autores, clique
aqui.
Para saber sobre
Augusto Monterroso, o maior microcontista do mundo,
clique aqui.
|