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Angu
de Sangue
Publicado em 2000,
"Angu de Sangue" foi o meu primeiro livro a sair por uma
editora. Graças à indicação do crítico
literário João Alexandre Barbosa, que, além
de me apresentar à Ateliê Editorial, acabou escrevendo
o prefácio. O livro reúne 17 contos. Leia o primeiro
deles, o "Muribeca". Mas antes, confira ao lado uma das
ilustrações, publicadas no livro, feita pelo meu amigo
Jobalo, artista plástico pernambucano que hoje mora em Milão,
na Itália. O projeto gráfico mais uma vez é
de minha querida Silvana Zandomeni.

Para
comprar o Angu de Sangue, clique
aqui.

Muribeca
Lixo?
Lixo serve pra tudo. A gente encontra a mobília da casa,
cadeira pra pôr uns pregos e ajeitar, sentar. Lixo pra poder
ter sofá, costurado, cama, colchão. Até televisão.
É a vida da gente o lixão. E por que é que
agora querem tirar ele da gente? O que é que eu vou dizer
pras crianças? Que não tem mais brinquedo? Que acabou
o calçado? Que não tem mais história, livro,
desenho?
E o meu marido, o que vai fazer? Nada? Como ele vai viver sem as
garrafas, sem as latas, sem as caixas? Vai perambular pela rua,
roubar pra comer?
E o que eu vou cozinhar agora? Onde vou procurar tomate, alho, cebola?
Com que dinheiro vou fazer sopa, vou fazer caldo, vou inventar farofa?
Fale, fale. Explique o que é que a gente vai fazer da vida?
O que a gente vai fazer da vida? Não pense que é fácil.
Nem remédio pra dor de cabeça eu tenho. Como vou me
curar quando me der uma dor no estômago, uma coceira, uma
caganeira? Vá, me fale, me diga, me aconselhe. Onde vou encontrar
tanto remédio bom? E esparadrapo e band-aid e seringa?
O povo do governo devia pensar três vezes antes de fazer isso
com chefe de família. Vai ver que eles tão de olho
nessa merda aqui. Nesse terreno. Vai ver que eles perderam alguma
coisa. É. Se perderam, a gente acha. A gente cata. A gente
encontra. Até bilhete de loteria, lembro, teve gente que
achou. Vai ver que é isso, coisa da Caixa Econômica.
Vai ver que é isso, descobriram que lixo dá lucro,
que pode dar sorte, que é luxo, que lixo tem valor.
Por exemplo, onde a gente vai morar, é? Onde a gente vai
morar? Aqueles barracos, tudo ali em volta do lixão, quem
é que vai levantar? Você, o governador? Não.
Esse negócio de prometer casa que a gente não pode
pagar é balela, é conversa pra boi morto. Eles jogam
a gente é num esgoto. Pr'onde vão os coitados desses
urubus? A cachorra, o cachorro?
Isso tudo aqui é uma festa. Os meninos, as meninas naquele
alvoroço, pulando em cima de arroz, feijão. Ajudando
a escolher. A gente já conhece o que é bom de longe,
só pela cara do caminhão. Tem uns que vêm direto
de supermercado, açougue. Que dia na vida a gente vai conseguir
carne tão barato? Bisteca, filé, chã-de-dentro
- o moço tá servido? A moça?
Os motoristas já conhecem a gente. Têm uns que até
guardam com eles a melhor parte. É coisa muito boa, desperdiçada.
Tanto povo que compra o que não gasta - roupa nova, véu,
grinalda. Minha filha já vestiu um vestido de noiva, até
a aliança a gente encontrou aqui, num corpo. É. Vem
parar muito bicho morto. Muito homem, muito criminoso. A gente já
tá acostumado. Até o camburão da polícia
deixa seu lixo aqui, depositado. Balas, revólver 38. A gente
não tem medo, moço. A gente é só ficar
calado.
Agora, o que deu na cabeça desse povo? A gente nunca deu
trabalho. A gente não quer nada deles que não esteja
aqui jogado, rasgado, atirado. A gente não quer outra coisa
senão esse lixão pra viver. Esse lixão para
morrer, ser enterrado. Pra criar os nossos filhos, ensinar o nosso
ofício, dar de comer. Pra continuar na graça de Nosso
Senhor Jesus Cristo. Não faltar brinquedo, comida, trabalho.
Não, eles nunca vão tirar a gente deste lixão.
Tenho fé em Deus, com a ajuda de Deus eles nunca vão
tirar a gente deste lixo.
Eles dissem que sim, que vão. Mas não acredito. Eles
nunca vão conseguir tirar a gente deste paraíso.

"Muribeca"
é um dos contos do livro "Angu de Sangue", publicado
pela Ateliê Editorial no ano 2000.
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